Ele e ela Parte II – Sacrifício


Ele e ela
Parte II – Sacrifício
               Ela simplesmente olhou para os olhos cintilantes dele e disse:
– Embora ainda te ame, tenho de ir, já não aguento essa tua forma miserável de viver. Ele, constrangido, apertou forte a rosa que trazia escondido nas costas. Ela foi-se embora convencida que encontraria alguém que a desse, além de amor, um viver mais condigno, pois ela merecia mais. Ele não conseguiu adormecer naquela noite, estava intensamente abatido e deprimido, como se lhe fosse retirado do nada a sua derradeira razão de viver.
 No embrião da manhã seguinte, levantou-se pesadamente da cadeira onde madrugou pensativo e foi trabalhar. Ele era sensato, animado, por vezes cómico, o que ela via nele um futuro pai excelente caso tivessem filhos. Ela era bela, mansa, delicada como flor, as suas ancas fortes – viola, pareciam esculpidas pelos anjos. Viviam juntos até ao recente sucedido.
Os piores pesadelos são vivenciados no florescer do dia, no calor da vida, e não na escuridão das noites frias tenebrosas; ele vivia agora o seu maior medo, o terror incessante de uma vida longa distante do seu grande amor. Ele era pedreiro de profissão, trabalhava por turno, o seu trabalho era muito esforçado por isso era imperativo trabalhar em regime de turno, ele gostava disso porque lhe possibilitava por vezes estar a tarde toda nos braços de sua amada. Agora as tardes não teriam lógica seriam frias e melancólicas, então ele decidiu dobrar as suas horas diárias de trabalho, queria agora trabalhar o dia todo, era a forma que ele acabava de encontrar para olvidar as suas mágoas. O seu patrão, feliz com o rápido progresso de sua empreitada, triplicou o seu salário. Então ele investiu-se na ideia de reconquistar o seu amor acumulando uma fortuna porém a sua situação financeira era a única razão que o separava de sua paixão.
Todavia, continuou ele trabalhando feito escravo sem descansar, tinha agora um objectivo e era vital esse propósito para ele, não queria parar de lutar até alcança-lo. Sobre as chuvas abundantes de Abril ele trabalhou, nas noites frígidas de Julho labutou, no calor fustigante das tardes longas do verão se empenhou, não se alimentava nem dormia em condições. O seu salário estava intacto ele não tocava. A sua economia crescia em ritmo progressivo, mas em contrapartida estava ele se enterrando cegamente na aspiração quase suicida de querer reconquistar o seu grande amor.
Trabalhou arduamente durante anos, até que certo dia adoeceu gravemente e foi consequentemente hospitalizado. 
Ela conheceu vários homens mas nenhum havia lhe dado amor ou qualquer outra coisa que ela achava merecer. Então ela teve sequências de anos de infelicidades. Ela ficou rapidamente sabendo do estado de saúde dele. Embora com o coração na mão, ganhou coragem e foi ver-lhe ao hospital. Ele muito emagrecido quase sem vida, olhou subtilmente para ela com toda doçura que carregava no coração e reparou que ela também havia emagrecido muito, estava pálida, não parecia alguém que havia alcançado a felicidade que procurava. 
– Ainda me amas? – perguntou ele receoso de uma resposta negativa. Meneou afirmativamente ela a cabeça, chorando!
– Ainda bem – continuou ele alegre, numa voz distante – agora além de amor, posso dar-te também conforto da fortuna que acumulei desde o dia em que te foste embora. Não é muito, mas posso conseguir mais assim que me recuperar desta enfermidade que tem assolado a minha alma…
– …Só sou feliz ao teu lado… – Foram as suas últimas palavras, antes de mergulhar desapercebido, com o sorriso ténue no rosto, nas profundezas do desconhecido; nas masmorras do silêncio eterno, aí onde nem o amor ou o ganância ganham o seu lugar.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                         
                                                             Fim

 Autor: Gaspar Lourenço

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2 comentários:

Gaspar Lourenço disse...

A maior prova de amor é sem sombras de dúvida o sacrifício. A bíblia nos ensina: João 3:19.

Carla disse...

ela estragou o que estava bom na ambição materialista de querer mais.

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